Simpósio na UNESCO em Paris Traça o Futuro da Ciência Aberta e da IA Transparente

Feb, 28 2026

Simpósio na UNESCO em Paris Traça o Futuro da Ciência Aberta e da IA Transparente

PARIS – Em um marco histórico para a preservação do conhecimento digital, a sede da UNESCO na França recebeu, neste 28 de janeiro de 2026, o Software Heritage Symposium and Summit. O evento, que celebra o 10º aniversário da iniciativa Software Heritage, reuniu líderes globais para consolidar o código-fonte como um Bem Público Digital, essencial para um futuro sustentável e para a soberania tecnológica das nações.

A edição deste ano não foi apenas uma celebração de uma década de arquivamento de software, mas o lançamento de uma agenda estratégica para 2026-2030. O foco central é claro: garantir que o "DNA" da nossa civilização digital seja preservado, citado e reutilizado de forma inclusiva, ética e transparente. Atualmente, a biblioteca já é a maior coleção de código do mundo, tendo dobrado seu volume nos últimos cinco anos, alcançando a marca de 27 bilhões de arquivos de origem.

IA Transparente e Inclusão: O Novo Paradigma

O painel "IA Transparente para Inclusão" destacou que, em um mundo dominado por algoritmos de "caixa-preta", a Inteligência Artificial responsável deve estar ancorada em arquivos de código abertos e verificáveis. A biblioteca Software Heritage foi apresentada como um "ponto de ancoragem" confiável para o treinamento de modelos de IA protegendo contra restrições de acesso a dados e dependências tecnológicas.

Nesse contexto, os padrões internacionais discutidos no evento visam:

       Fortalecer a diversidade linguística e cultural no desenvolvimento de IAs.

       Garantir a integridade e a procedência dos dados através de identificadores persistentes e intrínsecos (SWHID), agora normalizados pela ISO/IEC 18670.

       Promover a inovação local, permitindo que pesquisadores construam sobre o conhecimento acumulado globalmente, essencial para a cibersegurança e a análise de cadeias logísticas.

O Brasil no Protagonismo da Transformação Digital

Um dos grandes destaques do simpósio foi a presença brasileira, refletindo o compromisso do país com a infraestrutura digital aberta. O Instituto de Inteligência Artificial do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) foi representado pelo pesquisador José Hugo Elsas, enquanto a Secretaria de Ciência para a Transformação Digital do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (SETAD/MCTI) contou com a participação da Coordenadora-Geral de Transformação Digital, Cristina Shimoda.

A delegação sublinhou a importância estratégica que o Brasil atribui à preservação do código-fonte. Para o LNCC e a CGTR/SETAD/MCTI, o acesso a arquivos de código globais é um recurso que beneficia diversos atores e áreas do conhecimento, promove reprodutibilidade científica e avanços no desenvolvimento da IA. Preservar o código-fonte não é apenas um esforço técnico, é um ato de salvaguarda cultural e um motor para a autonomia digital, reforça a Coordenadora-Geral de Transformação Digital, Cristina Shimoda.

Para o pesquisador José Hugo, no que concerne à iniciativa Software Heritage, Brasil se apresenta como um dos parceiros preferenciais para a expansão da mesma por uma combinação de capacidade técnico-científica, compatibilidade legal e uma postura diplomática pautada pelo diálogo, neutralidade e autonomia. Como discutido pelos membros da iniciativa, esta combinação é rara, especialmente fora da UE, o que tem, até o momento, limitado a iniciativa ao continente europeu. Esta parceria apresenta uma oportunidade única de contribuir para o PBIA, em particular Eixos 1, 3 e 4. Esta iniciativa também materializa uma ferramenta prática para soberania digital do país: a capacidade de obter acesso a softwares importantes para governo e indústria, mesmo no evento de conflitos ou animosidades exteriores. 

Um Acordo para as Próximas Gerações

A cerimônia de abertura foi marcada pela renovação da parceria entre a UNESCO e o INRIA, Instituto Francês de Pesquisa em Ciência e Tecnologia Digital. O novo acordo reafirma o compromisso de manter o arquivo como uma infraestrutura de resiliência global, comparável a bens comuns como a Wikipedia e o OpenStreetMap.

A agenda 2026–2030 marca a transição da biblioteca de uma "archive patrimonial" para uma base operacional para a soberania digital. O objetivo é que, até 2030, a preservação e a citação de software sejam práticas integradas em toda a administração pública, indústria e academia.

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Fotos: ©Inria / Photo B. Fourrier